QUANTO CUSTA UM DOUTOR?

Por Marcos Bagno

Caros Amigos, março de 2011

Pelo que já li e me disseram, uma tese de doutorado ou, mais modestamente, uma dissertação de mestrado, pode ser comprada (e por preço nem tão alto assim) de alguma das muitas empresas especializadas nesse comércio. Que haja quem compre e quem venda trabalhos intelectuais não é algo tão espantoso na nossa era “pós-moderna” em que nada tem valor e em que a relação com o conhecimento se dessacralizou completamente, passando de um extremo negativo — a erudição pedante, o elitismo da educação clássica, a mitificação do grande sábio — para o outro extremo, tão negativo quanto: o utilitarismo rasteiro, a fachada ou o verniz de conhecimento, o título já não como um símbolo mas como a coisa-em-si. O espantoso (o escandaloso) é haver quem aprove esses trabalhos com mérito e louvor e ainda recomende para a publicação. Aliás, recomendar uma tese para publicação virou uma expressão vazia, tanto quanto aplaudir de pé todo e qualquer espetáculo cênico, por menos original e por pior que ele seja. Assim como se levantar para aplaudir é só uma antecipação do gesto de ir embora, recomendar uma tese para publicação é só uma fórmula oca para encerrar o processo da defesa.

No entanto, o escândalo não fica por aí. Pior do que aprovar uma tese feita por terceiros é aprovar uma tese feita por alguém que supostamente teve a orientação de um pesquisador experiente. As teses compradas costumam ser produzidas por pessoas que obtêm ganhos materiais com seus talentos de boa redação e capacidade de juntar ideias. As teses feitas pelos próprios doutorandos — guardadas, é claro, as exceções de praxe — se revelam cada vez mais “sambas do branquelo doido” (já que 99% dos nossos doutores são de “raça” caucasiana). Na área das Letras, que é onde eu atuo, o absurdo se torna ainda mais imperdoável quando, a cada página da tese, aparecem pelo menos quinze erros de ortografia, pontuação, concordância, vocabulário, para não mencionar os disparates teóricos e as metodologias de análise quase infantis.

A grande maioria dos meus colegas lê (quando lê) a tese na véspera ou mesmo no avião que os leva para o evento da defesa. Com isso, é claro, os arguidores só topam com os problemas do trabalho pouco antes de se sentar à banca, problemas que são para eles pura surpresa. E toca a aprovar e a elogiar o besteirol que aparece ali.

Nessa produção acadêmica “pós-moderna”, o que importa é a quantidade. Um programa de pós-graduação tem que preencher infinitos relatórios para as agências financiadoras (Capes e Cnpq) e quanto mais números, melhor. Duzentas dissertações de mestrado defendidas e aprovadas em dois anos? Maravilha! Não interessa se elas não poderiam ser aceitas nem como um trabalho de pesquisa da 8a série, só interessa que estão lá, de capinha dura e letra prateada enfeitando (para ninguém ler) as estantes do programa. As pessoas riem quando conto que Wittgenstein, um dos filósofos mais importantes do século XX, levou mais de uma década para terminar sua tese, como se tivessem pena dele… Com os prazos absurdos exigidos pelas agências, com o número absurdo de doutorandos que alguns orientadores (?) acolhem, a produção intelectual brasileira virou, nas palavras de Marilena Chaui, uma “fábrica de pãezinhos”. Todos feitos com bromato de potássio, ocos, com cheiro azedo e incapazes de prover uma boa alimentação ao nosso espírito.

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