Ataques em Oslo

Por Mário Miranda

Os escritos abaixo resultam de alguma leitura e reflexão. Penso que no contexto da Globalização,
o esvaziamento do conteúdo ideológico da política contribui para a diluição das demandas e
contradições sociais e o antagonismo ou choque de culturas. O texto do Yahoo – abaixo – demonstra
a “sofisticação” e o potencial da extrema direita na Europa. Não pode haver engano, são tudo menos
loucos, embora cheias de equívocos, sofismas e falácias, os fanáticos da extrema direita possuem
extensa fundamentação teórica, ideológica e práxis disciplinadas. Sua ação confirma seu rigor
intelectual, ideológico e disciplina. Estão mais organizados e articulados que muitos movimentos sociais
e partidos. Mais abaixo vai o meu texto.
Para atirador da Noruega, mistura de raças do Brasil é ‘catastrófica’ – Yahoo Noticias

A mistura de raças em países como o Brasilresultou em “altos níveis de corrupção, baixa produtividade
e conflitos entre as diferentes culturas” para Anders Behring Breivik, o norueguês que assumiu a
autoria dos atentados em Oslo. A observação está presente no manifesto “A European Declaration
of Independence – 2083” (Uma declaração de Independência Europeia - 2083) – atribuído a Breivik e
divulgado na internet horas antes do massacre na Noruega.

A declaração diz ainda que o “Brasil vem se estabelecendo como o segundo país do mundo com
o menor nível de igualdade social". Noutro trecho, ele volta a citar o Brasil como exemplo de
desigualdade: “(...) Um país que tem culturas que competem entre si vai acabar se dividindo
internamente ou, a longo prazo, vai terminar como um lugar permanentemente disfuncional como o
Brasil e outros países semelhantes”.
Cheio de referências históricas, o manifesto inclui detalhes da personalidade do agressor, seu
modo para fabricar bombas e seu treinamento de tiro, além de um diário detalhado dos três meses
que precederam o ataque. Na parte em que fala sobre a fabricação de bombas, ele menciona o
acidente radioativo com o césio 137, em Goiânia, que vitimou centenas de pessoas em 1987. “Seja
extremamente cuidadoso quando lidar com material radiológico”, alerta Anders.

O norueguês também incluiu o Brasil na lista de países que sofreram intervenções dos Estados Univos e
que se tornaram independentes com “golpes de estado sanguinários”: “Em 1889, o Brasil se tornou uma
república via um golpe de estado sanguinário”.

O texto tem as palavras “Brasil” ou “brasileiro” pelo menos 12 vezes no documento.

Ataques em Oslo – por Mario Miranda Antonio Junior

Os ataques em Oslo são emblemáticos. Eles revelam muito, menos sobre o individuo que a sociedade
e política. Haverá tantas explicações, hipóteses e especulações quanto os especialistas dispostos
a comentar esse fato. Psicólogos buscarão psicopatias, psiquiatras patologias, crentes possessões.
Advogados apontarão leis liberais que permitem o acesso às armas, clamando por maior controle e leis
mais rigorosas. As pessoas, sobretudo nas sociedades mais complexas e ocidentais, têm uma inclinação
a individualizar as motivações e explicações sobre os fatos ou os acontecimentos. Tendência que se
explica pela primazia do individualismo que caracteriza essas sociedades.
Todas as hipóteses podem estar corretas, entretanto, como sociólogo olho para a sociedade e as
suas estruturas. Esse debate insere-se na perspectiva da pós-modernidade. Ela se caracteriza por
uma atitude de rejeição às macro teorias, privilegiando a fragmentação e a superficialidade. Ocorre
a exclusão seletiva dos debates dos grandes paradigmas, interpretações e teorias determinando-se
que estejam definitivamente superadas. Os pós-modernistas descartam a idéia de revolução como
caminho natural ou necessário para uma “nova sociedade", um "novo homem” e uma sociedade sem
exploração. Na esfera moral, há a tendência a tolerância, o respeito às diferenças e certo pluralismo
radical, paradoxalmente caracterizando-se como um mundo sem inimigos ou contradições a superar;
espécie de panglossismo. Decerto também parecem se posicionar numa atitude de neutralidade moral
frente às discussões que se encaminham para polarizações rejeitando os antagonismos.
No campo da educação, prevalece o discurso que privilegia o ensino e a pesquisa inter ou
transdisciplinar. Do ponto de vista epistemológico, o sujeito pós-moderno opõe-se aos grandes
modelos teóricos. A atuação política pós-moderna desqualifica e dissimula a ação política tradicional
(Estado, partidos políticos, sindicatos, movimentos populares, etc), preferindo atuar por meio de

ações voluntárias através de ONGs, bem como nos atos mais ou menos espontâneos de grupos e/ou
de sujeitos políticos protagonistas ou representantes de demandas sociais especificas (ambientais,
gênero, jovens, etc) ou de grupos excluídos. Caracteriza-se por uma tendência aberta ao individualismo
e utilitarismo dissimulado por uma espécie de hedonismo socializado pela mídia. Esvazia os conteúdos
ideológicos intrínsecos ao campo político e reduz o papel do Estado a mero financiador ou prestador
de serviços públicos. Nesse contexto é que se inserem as interpretações sobre os fatos históricos e os
acontecimentos políticos ou sociais na atualidade.
Isso posto, o massacre norueguês do final de semana diz mais sobre o contexto político europeu e
ocidental do que sobre o individuo isolado, porque é a sociedade quem o influencia e não o contrario.
Nessa perspectiva, sua ação se insere em um contexto de rejeição a perspectiva pós-moderna no campo
político de um lado e, de outro, ao fortalecimento da extrema direita na Europa devido à desilusão
com a esquerda socialista/comunista. A esquerda européia não conseguiu oferecer respostas teóricas
e tampouco praticas a sociedade após a queda do Muro e a hegemonia americana. Desde a época
Thatcher – Reagan que a política européia submete-se as orientações da Casa Branca. O ataque em
Oslo insere-se ainda num amplo contexto de fortalecimento da extrema direita européia resultante da
paranóia estabelecida pelo pós 11 de Setembro. Essa paranóia verifica-se pelas ações caracterizadas por
políticas de enfrentamento do ponto de vista exterior – conforme a cartilha de Washington. Do ponto
de vista interior são condicionantes, restritivas, xenófobas, autoritárias.
A Europa e o europeu fecharam-se, sobretudo, para os países árabes e islâmicos. Nesse contexto todos
os movimentos e partidos autoritários, nacionalistas, cristãos conservadores e arianos se fortaleceram.
Antes reservados aos Bálcãs e ao leste europeu, hoje tem grande aceitação e visibilidade junto a Europa
central e ocidental, mesmo nas democracias mais solidas, liberais e nos países de tradição socialista
ou centro-direita – como a França, a Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, Dinamarca e agora a
Noruega.
O individuo isolado que atira em jovens participantes de atividades do Partido Trabalhista norueguês
mostra a face autoritária que se choca contra a imagem de tolerância cosmopolita estabelecida no
distante pós-guerra. Em 2001 acabou o vácuo que havia entre os pós-guerras – Segunda Guerra e
Guerra Fria. Esse massacre, de um lado, mostra que as alternativas fascistas ainda resistem e seduzem
setores insatisfeitos com as respostas oferecidas pela política tradicional e os relativismos estabelecidos
pela pós-modernidade. O Welfare State europeu do pós-guerra não pode mais resistir ao Capitalismo
global e a hegemonia americana.
Não é sem motivo que nos lugares tradicionais de conflito e competição – trabalho, política, moral,
sexualidade, cultura – em que inexistem limites definidos ou claros é que encontramos a crise instalada
nessas sociedades. Essa crise verifica-se em indivíduos frustrados, insatisfeitos, infelizes, deprimidos,
doentes. Esse mal-estar Freud associou-o a crise da modernidade, Reich foi mais visionário e avançou
mais. Se a modernidade vislumbrava a felicidade por meio do progresso cientifico ou de uma revolução,
a pós-modernidade promete por meio da tecnologia, globalização e democracias neoliberais o fim das
fronteiras, ideologias e história, enfim, um nada que pretende ser o solo fértil para tudo.

Mario Miranda Antonio Junior
Sociólogo
Pós em Direitos Humanos - USP

Uma resposta para “Ataques em Oslo

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