Ataques em Oslo

 

Por Mario Miranda
 
Os ataques em Oslo são emblemáticos. Eles revelam muito, menos sobre o individuo que a sociedade e política. Haverá tantas explicações, hipóteses e especulações quanto os especialistas dispostos a comentar esse fato. Psicólogos buscarão psicopatias, psiquiatras patologias, crentes possessões. Advogados apontarão leis liberais que permitem o acesso às armas, clamando por maior controle e leis mais rigorosas. As pessoas, sobretudo nas sociedades mais complexas e ocidentais, têm uma inclinação a individualizar as motivações e explicações sobre os fatos ou os acontecimentos. Tendência que se explica pela primazia do individualismo que caracteriza essas sociedades.
Todas as hipóteses podem estar corretas, entretanto, como sociólogo olho para a sociedade e as suas estruturas. Esse debate insere-se na perspectiva da pós-modernidade. Ela se caracteriza por uma atitude de rejeição às macro teorias, privilegiando a fragmentação e a superficialidade. Ocorre a exclusão seletiva dos debates dos grandes paradigmas, interpretações e teorias determinando-se que estejam definitivamente superadas. Os pós-modernistas descartam a idéia de revolução como caminho natural ou necessário para uma “nova sociedade”, um “novo homem” e uma sociedade sem exploração. Na esfera moral, há a tendência a tolerância, o respeito às diferenças e certo pluralismo radical, paradoxalmente caracterizando-se como um mundo sem inimigos ou contradições a superar; espécie de panglossismo. Decerto também parecem se posicionar numa atitude de neutralidade moral frente às discussões que se encaminham para polarizações rejeitando os antagonismos.
No campo da educação, prevalece o discurso que privilegia o ensino e a pesquisa inter ou transdisciplinar. Do ponto de vista epistemológico, o sujeito pós-moderno opõe-se aos grandes modelos teóricos. A atuação política pós-moderna desqualifica e dissimula a ação política tradicional (Estado, partidos políticos, sindicatos, movimentos populares, etc), preferindo atuar por meio de ações voluntárias através de ONGs, bem como nos atos mais ou menos espontâneos de grupos e/ou de sujeitos políticos protagonistas ou representantes de demandas sociais especificas (ambientais, gênero, jovens, etc) ou de grupos excluídos. Caracteriza-se por uma tendência aberta ao individualismo e utilitarismo dissimulado por uma espécie de hedonismo socializado pela mídia. Esvazia os conteúdos ideológicos intrínsecos ao campo político e reduz o papel do Estado a mero financiador ou prestador de serviços públicos. Nesse contexto é que se inserem as interpretações sobre os fatos históricos e os acontecimentos políticos ou sociais na atualidade.
Isso posto, o massacre norueguês do final de semana diz mais sobre o contexto político europeu e ocidental do que sobre o individuo isolado, porque é a sociedade quem o influencia e não o contrario. Nessa perspectiva, sua ação se insere em um contexto de rejeição a perspectiva pós-moderna no campo político de um lado e, de outro, ao fortalecimento da extrema direita na Europa devido à desilusão com a esquerda socialista/comunista. A esquerda européia não conseguiu oferecer respostas teóricas e tampouco praticas a sociedade após a queda do Muro e a hegemonia americana. Desde a época Thatcher – Reagan que a política européia submete-se as orientações da Casa Branca. O ataque em Oslo insere-se ainda num amplo contexto de fortalecimento da extrema direita européia resultante da paranóia estabelecida pelo pós 11 de Setembro. Essa paranóia verifica-se pelas ações caracterizadas por políticas de enfrentamento do ponto de vista exterior – conforme a cartilha de Washington. Do ponto de vista interior são condicionantes, restritivas, xenófobas, autoritárias.
A Europa e o europeu fecharam-se, sobretudo, para os países árabes e islâmicos. Nesse contexto todos os movimentos e partidos autoritários, nacionalistas, cristãos conservadores e arianos se fortaleceram. Antes reservados aos Bálcãs e ao leste europeu, hoje tem grande aceitação e visibilidade junto a Europa central e ocidental, mesmo nas democracias mais solidas, liberais e nos países de tradição socialista ou centro-direita – como a França, a Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, Dinamarca e agora a Noruega.
O individuo isolado que atira em jovens participantes de atividades do Partido Trabalhista norueguês mostra a face autoritária que se choca contra a imagem de tolerância cosmopolita estabelecida no distante pós-guerra. Em 2001 acabou o vácuo que havia entre os pós-guerras – Segunda Guerra e Guerra Fria. Esse massacre, de um lado, mostra que as alternativas fascistas ainda resistem e seduzem setores insatisfeitos com as respostas oferecidas pela política tradicional e os relativismos estabelecidos pela pós-modernidade. O Welfare State europeu do pós-guerra não pode mais resistir ao Capitalismo global e a hegemonia americana.
Não é sem motivo que nos lugares tradicionais de conflito e competição – trabalho, política, moral, sexualidade, cultura – em que inexistem limites definidos ou claros é que encontramos a crise instalada nessas sociedades. Essa crise verifica-se em indivíduos frustrados, insatisfeitos, infelizes, deprimidos, doentes. Esse mal-estar Freud associou-o a crise da modernidade, Reich foi mais visionário e avançou mais. Se a modernidade vislumbrava a felicidade por meio do progresso cientifico ou de uma revolução, a pós-modernidade promete por meio da tecnologia, globalização e democracias neoliberais o fim das fronteiras, ideologias e história, enfim, um nada que pretende ser o solo fértil para tudo.
 
Mario Miranda Antonio Junior
Sociólogo
Pós em Direitos Humanos – USP

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