Exercito Lumpem

Por Cristiano Magalhães para o Território Coletivo

    é necessário reconhecer que a redução quantitativa do contingente proletário exige repensar as condições do seu protagonismo político (Netto e Braz, 2010)

O maior marxista revolucionário Latino Americano do Sec. XX, o Peruano José Carlos Mariátegui, já alertava para o potencial revolucionário dos povos indígenas.

Em 17 de novembro de 1983, um grupo muito pequeno de militantes chega a Chiapas, esse grupo também acreditou nesse potencial e, em 1° de janeiro de 1994, irrompe o Levante Zapatista.

Hoje o Exercito Zapatista de Libertação Nacional – EZLN é amplamente reconhecido pelas forças de esquerda e seu caráter revolucionário é “quase” inquestionável.

Em fortaleza no Ceará, no início da Dec. de 90, um grupo de marginais (isso mesmo; marginais) passa a se organizar junto ao movimento estudantil e, no final dessa mesma década, constituíram-se no mais representativo movimento sociocultural atuante nas comunidades e favelas da cidade.

Apesar da luta conjunta e da relação cotidiana com os partidos (de esquerda), ao contrário do que acontece na maioria dos casos, não foram cooptados por essa esquerda tradicional que dirigia o movimento estudantil na época.

Ao invés disso, esse grupo de jovens (todos intelectuais orgânico; como define Antonio Gramsci), órfãos de pai e mãe, criam a si mesmo. Em sua prática política, apreendem as tecnologias (teóricas, organizacionais, etc.) dos partidos, grupos e movimentos. Passam a pensar (algo que atualmente na esquerda tradicional, parece ter sido delegado a uma esfera, destacada de dirigentes e intelectuais), a fazer eles mesmos, a sua própria interpretação de mundo. Sua análise de conjuntura. E, como dizem, sua linha ideológica; POBRES VS RICOS ao invés de proletários VS burgueses.

Como podiam esses desempregados, marginais, vagabundos e aventureiros serem trabalhadores? Como esses poderiam ser definidos como operários? Sendo incluídos automática e acriticamente na categoria: proletariado? Nenhuma dessas categorizações se aplicava. Perceberam que o trabalho, sendo a principal ferramenta de exploração e de condicionamento do ser humano, não poderia ser enaltecido, como faz a esquerda ortodoxa e seus teóricos.

Uma categoria, porém chamou a atenção: o lumpem.

Com muito esforço e dificuldade esses marginais semialfabetizados começam a estudar, tentando compreender sua condição de classe. Com o tempo foi se aprofundando a certeza assustadora de que os intelectuais pequeno-burgueses da esquerda tradicional estavam equivocados. Esses vagabundos não eram e nem poderiam ser trabalhadores. Todas as condições materiais de existência lhes afirmavam isso todos os dias. Esses também não podiam ser um Exercito Industrial de Reserva. A dinâmica capitalista apontava já um processo de desindustrialização, que hoje não é mais negado por ninguém. Se a produção industrial está em um recuo, e sendo mantido o atual modelo, seu desenvolvimento tende a agudizar esse processo e suas contradições. Então a que se reserva esse exército? Se “no capitalismo contemporâneo o desemprego maciço foi transformado em fenômeno permanente” (Netto/Braz).

Sem Teto, Desempregados, Sem Terra, Povos Originários de todo o tipo, sem qualificação tecnica, que está sendo vomitado pelo capitalismo contemporâneo, em um violênto processo de reacomodação, de metamorfose desse sistema, que se convulsiona tentando sobreviver, não pode ser nada mais senão o lumpem.

Ah! Mas o Lumpem é desorganizado! “Só ao proletariado está aberta a possibilidade de conduzir consequentemente a luta contra o capital”! Diz um. O lumpem é “uma massa indefinida e desintegrada, despossuida de consciência política, sua absoluta ausência de valores poderá contaminar a consciência revolucionária”! Diz o outro.

A esses, cabe lembrar que o ploletário tambem foi desorganizado. Depois, veio um manifesto. O processo de organização. A consciêntização. Os primeiros partidos político da classe (Sociaisdemocratas, trabalhadores, socialistas, comunistas), onde se organizou essa classe.

A esses cabe lembrar que nada é absoluto, “tudo o que é sólido se desmancha no ar (Marx)”. Que não devemos fazer análises morais, sim uma “análise concreta da situação concreta” (Lenin). Que só a luta muda à vida! Que é na prática política cotidiana, nas organizações revolucionárias que se forma a consciência revolucionária.

Exercito sim! Mas, um exercito lumpem.

Essa concepção teórica singular vem sendo desenvolvida por diferentes pessoas na trajetória desse movimento, entre as quais, esses têmpreferido destacar, a figura de Moésio Castro. Principal orientador da fracção revolucionária que herdou a história desse movimento.

Assim como Mariátegui fazia com os indígenas, nós a Aliança Revolucionária do Povo Pobre (ARP-2), defende o potencial revolucionário do Lumpesinato. Defende e está, a mais de 20 anos, organizando o “povo pobre”.

Sensibilizando, organizado e canalizando-o para a luta revolucionária. E, assim como o EZLN, esses tem acompanhado a materialização desse potencial revolucionário em lutas diversas. Seja na organização da Força Nacional de Hip Hop, no Movimento das Mulheres Lumpensinas da Luta Feminina pela Emancipação da Mulher Explorada (La-FEME), na campanha A Redução da Maioridade Penal é Crime! Na formação da rede de entidades culturais anticapitalista da Frente Ampla Cultural – FAC, entre tantas lutas por educação, saúde, segurança alimentar, direitos, reforma urbana e etc. Seja no Ceará, ou nos estados onde esse movimento já começa a se firmar, como no Rio de Janeiro e São Paulo.

Estes se constituem, como um Movimento Lumpem. A Aliança Revolucionária do Povo Pobre.

A Aliança Revolucionária do Povo Pobre (ARP-2) é o Partido (A parte que nos cabe) dos militantes e quadros que formam a Vanguarda do Lumpesinato.

Cristiano Magalhães é fotógrafo, educador e comunicador popular. Sendo fundador, entre outros, da frente ampla cultural – FAC e da Força Hip Hop. Atualmente organiza, no Rio de Janeiro, a Zona Imaginária, cooperativa que organiza fotógrafos, grafiteiros e artistas visuais diversos no Rio de Janeiro.
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