Melancolia e outras formas de representação da catástrofe

Filme de Lars von Trier é alegoria da grande tristeza, a tristeza de não ser santo perante a perda total que a catástrofe anuncia

 11/01/2012

Silvia Adoue e Josefina Mastropaolo

A atriz Kirsten Dunst em cena do filme Melancolia – Foto: Divulgação

Quem assistiu a Aeroporto (1970), Independence Day (1996), Volcano (1997), O dia depois de amanhã (2004) ou 2012 (2009) sabe a que nos referimos quando falamos em “cinema catástrofe”. Grandes desastres naturais ou resultantes de uma tecnologia sofisticada demais, utilizada numa escala grande demais, e da qual nos tornamos excessivamente dependentes.

A soberba burguesa perante a natureza enxerga a catástrofe como um cataclismo final e tão inevitável como inesperado. É um estado de exceção, distante na tela. Mas há um resto humano, para além da cultura burguesa, que nos faz farejar o perigo. Como toda a produção hollywoodiana, o gênero apela às fantasias inconscientes, prazerosas ou aterrorizantes.

A catástrofe em escala planetária está instalada como possibilidade histórica desde 1914, terror renovado pela destruição de Hiroshima e Nagasaki em 1945. O apocalipse nuclear pairava sobre o mundo durante o período da Guerra Fria. O medo da morte, muito mais do que a repressão sexual que Freud apontou no final do século 19, está hoje no centro do sofrimento humano como fonte de angústia. Não se trata da morte em si, mas da sensação de morte iminente.

Melancolia, o filme do dinamarquês Lars von Trier, fala disso. E o faz com uma grande alegoria. As tomadas iniciais foram produzidas com recursos técnicos amplamente usados na publicidade. Imagens de grande beleza plástica, câmera lenta, trilha sonora grandiloquente.

Na trama, um planeta, o Melancolia do título, que permaneceu escondido por trás do sol, aparece e inicia uma dança macabra com a Terra, ameaçando chocar-se com ela. Ora se aproxima, ora se afasta. Paquera nosso planeta, seguindo uma órbita que mais parece com o desenho de uma bela coreografia.

As personagens centrais, as irmãs Justine e Claire, se revezam no papel de protagonistas. Na primeira parte, Justine, com transtorno melancólico, é uma publicitária de sucesso que não consegue se alegrar com o próprio casamento. Na segunda parte, Claire, mãe de família devotada, cuidadora da sua irmã doente, seu marido e seu filho, se desespera perante o fim iminente.

O cenário é um palácio, transformado, para a exploração empresarial, em um campo de golfe pelo marido de Claire. Na primeira parte, a festa, com Claire no controle, domina o enredo. A tensão está na tristeza destoante de Justine. Na segunda, é ela que permanece serena, mantém a calma e consegue cuidar do sobrinho. Constrói com ele uma “cabana mágica”. Uma vez mais, criando uma ilusão de proteção, como boa publicitária.

Numa cena, o cavalo preto de Justine recusa-se a cruzar a ponte. O animal parece perceber o perigo iminente que o humano não reconhece. A lucidez de Justine a leva a entender o medo do cavalo, e o chicoteia assim mesmo. E é por essa lucidez que detesta a sua profissão de publicitária, capaz de apresentar a mercadoria, grande geradora da catástrofe, com imagem sedutora. A beleza é cúmplice não apenas porque ajuda a vender a mercadoria, mas porque gera a paralisia, desarmando a resistência ao desastre. Os livros de arte, inclusive os da arte que anuncia o apocalipse, queimando, numa das cenas, parecem nos alertar: toda a arte perecerá se a humanidade não for salva. Uma arte incapaz de exconjurar o desastre é inútil, é frívola ou mesmo cúmplice.

Melancolia é alegoria da grande tristeza, a tristeza de não ser santo, diria o poeta nicaraguense Ernesto Cardenal, perante a perda total que a catástrofe anuncia. Mas esse tema vem sendo tratado de outros modos, mais explícitos, pelo cinema. Como em Biutiful (2010), do mexicano Alejandro González Iñarritu. Ou como em Abutres (2010), do argentino Pablo Trapero. Ou, ainda, como em Linha de passe (2008), dos brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas. Neles, o que é dito é que habitamos a catástrofe, e essa catástrofe não é natural. Não há onde se resguardar, porque é global. Está engolindo os afundados em primeiro lugar, mas ninguém fica a salvo. Não há Estado de bem-estar, constituição, lei, instituição que proteja do desastre climático, da contaminação, da propagação da doença, do desemprego. A humanidade aparece como um incômodo para a economia. Uma distorção estatística. Os corpos ocupando as praças nas cidades europeias, para além dos protestos, com a simples presença testemunham a contrariedade entre a economia e a condição humana. E não há diferença entre bons e maus, o capital a todos destrói, enquanto humanos. Em Biutiful e em Abutres, por exemplo, não há linha divisória moral: os protagonistas são ao mesmo tempo vítimas e vitimários, explorados e exploradores, mesmo quando se trata de exploradores pés de chinelo.

O remanescente humano nem sempre se rebela. Às vezes, parece até pedir desculpas por existir, por atrapalhar o livre trânsito dos planos de aceleração do crescimento. A diferença entre nós e o cavalo de Melancolia é que ainda falamos da barbárie e da catástrofe como um estado por vir. Cruzamos o limiar da catástrofe sem perceber que nela habitamos. As instituições e os projetos que gerenciam a barbárie nada podem contra a intempérie do capital. Soluções como essas são tão inócuas como a frágil cabana da tia Justine.

 

Silvia Adoue é professora da Escola Nacional Florestan Fernandes (Enff) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Araraquara.

 

Josefina Mastropaolo é professora da Escola Nacional Florestan Fernandes (Enff) e doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Fonte: Brasil de Fato

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